terça-feira, 7 de abril de 2015

Nada



Quando foi que me dei conta,
as aves passaram seu bando,
cantaram seu cândido canto 
âmago, e amarelo na ponta

Pois o vácuo me possui inteiro,
feito lobo no espelho, sem se ver,
sensível e estrondante pra valer,
exausto, e exitoso perdido lixeiro,

canto a mim, menino ventante,
alma escaldante e volatilosa, 
onde a candura se fez prosa,

onde a estatura, estulta cantante,
me mostra a primeira escada,
onde a intenção mostra-me nada...

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Vista aberta


O que opto por real,
vejo, ajo, me desapego,
furos do eterno em meu ego,
impaciento-me no final,

e no começo, valente e leve,
sobrevoo em pipas o mal
como fosse etéreo e irreal,
como andasse em breve,

e como ventasse em nuvens,
e nas beiras das pedras,
vigiar pelo que me leva,

sigo, porque, visto o tótem,
pó e sustento, visito e me eleva,
ao estatuto de tudo, vista aberta...

domingo, 5 de abril de 2015

Páscoa













O que nasce, sempre deve
renascer, toda, cada hora,
na esperança ferida que chora,
única certeza que esta vida pede...

O que morre, se vai,
e se vem, feito a marola,
que arrebenta, ou na pedra embola,
como quem sobe, cai,

como quem cai, sobe,
que a vida é exercício de olhar,
e ver qual a função e o lugar,

disto que aqui vivemos, sabe?
Passageiros de, hora nascer,
Páscoa de viver, após morrer...

sábado, 4 de abril de 2015

Estrada


Se volto, me volto, me acato,
no meio das voltas do esteio
ondas de espasmos e seios,
perfumes e frustrações do acaso...

Pois o impreciso lançou-se das beiras
E deu-se ao ar, água e alerta,
cândida e admirável estultice certa,
e voltas ao esmo onde o eterno esgueira...

E nem sei, apenas me dei ao preço,
como o valor de tudo e mais nada,
o sabor do mundo em cada,

meu labor há de me esticar o apreço,
pra que chegue em ser camarada,
nestas voltas tantas que se dão na estrada

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Caminhos


Os rumos, os prumos e trilhos,
os passos das horas e vãos,
os contos, as fibras, o chão,
pros nossos irmãos e filhos,

hão de nos mostrar caminhos,
farão de nossas estradas
espasmos nas madrugadas
e razão pra nos termos carinho.

E seguindo, vamos nos brotando,
mesmo que a dor crave espinhos,
mesmo que o inexato, ele sozinho,

em alguma Cruz, Cristos fixando,
a passagem pro novo tempo,
se pode sentir o cheiro, no vento...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Cantiga


Uma chuva fria, um torpor,
um vaso fincado no oco,
a metade raspada de um coco,
um tronco, marcado por flor...

E no contratempo, o passo,
do bicho que corre pra onde,
o medo ainda se esconde,
mas, há de se afrouxar este laço,

há de se soltar esta lida,
na estrada larga, ou apertada,
marcada das dores da vida,

pois o que rompe na madrugada,
é a certeza imaculada,
de que o que vale, é a cantiga.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Crianças


Neste lindo país onde moro,
o povo nos ensinou pela vida,
cedo, crianças, velhos, tecer,
a vida delicada e compartida!

A vida feito as velhas redes,
que embalavam pequeninos e avós,
que nos deixavam soltos e a sós,
e permitiam aos meninos o tempo deles,

o tempo de ser delicado e aprendente,
meninas tão agredidas, feridas,
flores mães perigosamente doloridas,

partituras de canções candentes,
falam deste tempo de imbecilidade,
em que culpam as vítimas da brutalidade.