sábado, 5 de setembro de 2026

Rio escuro

 De dentro e sobre mim corre um antigo rio

de águas frias das dores que me passaram,

que ferem, ardem da frieza com que mataram

os sonhos que me fundaram, da bomba, o pavio...

 

Sinto tudo, cada simples coisa, como fosse eterna,

porque assim me dobram as costas ante o peso,

de parecer que o (meu) esforço merece desprezo,

 e a ferida fixa-se na cabeça, braços, tronco, pernas...

 

Sou todo uma força capaz de fortemente resistir,

mas também uma fragilidade que não brinca

com medo de acabar vendo em si uma trinca...

 

Sei que o eterno dará voltas além do meu existir 

e o tanto que é pequena, esta dor que sinto agora!

Por isso quero voltar a ver a luz sem mais demora! 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Perguntas sobre o caminho

 Pra que, afinal, serve esta estrada que trilhamos?

Seu sentido estará na chegada, no ponto final,

na conclusão dos passos que damos, bem ou mal?

Ou o caminho só se justifica porque andamos?

 

Assim, o sentido do alimento habita no repouso,

que se pratica após a refeição em nossa cultura?

Ou o prazer maior se encontra na diária feitura,

como a alegria do amor estaria na busca do gozo?

 

O que este Poema busca, é antes de tudo o buscar!

O meio do processo é na verdade o que o justifica,

pelo escolher das palavras: a que sai, a que fica...

 

Porque a gente entra na água mais pra se molhar,

e sentir a leveza do corpo, que o boiar implica,

do que pela sensação de fim, de, do outro lado chegar... 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Pra onde vamos

 

O mundo ainda nos cabe, e acho, ainda,

por muito tempo nos caberá os sonhos,

as vontades, as lidas, os desejos medonhos,

e a resiliência com que a esperança nos brinda!

 

Nossa existência se segura nas certezas

de que a luta levará ao que já vislumbramos:

Uma convivência onde, as mãos, nos damos,

 pra andarmos juntos, com igualdade e leveza!

 

E assim, quando nos entendermos coletivo,

e que a terra é generosa, e pede a partilha,

e que ninguém deve ser dono das trilhas, 

 

mas antes, os rumos e rotas não são cativos,

e servem à nós, pra sairmos destas ilhas,

na direção certa do nosso futuro altivo! 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Do que nos mostra a Poesia

 

 Dizer o que é necessário, de forma clara,

é uma ilusão que cabe em todas as partes:

O que e necessário? Quem define, reparte?

E o que é claro, se cada coisa tem muitas caras?

 

A ciência briga com a linguagem pela dubiedade!

É justo, mas nem sempre lembra que é da natureza

humana a diversidade das cartas, sobre as mesas,

que são tantas umas e outras, em busca da verdade...

 

Assim, vamos tateando na escuridão, sem esquecer,

de que existe a mentira, que se manifesta na intenção

de quem passa uma mensagem, do olhar sua expressão,

 

mas que mesmo entre os que a luz queremos merecer,

a imprecisão nos torna humanos, em busca da redenção,

de sermos honestos, no que pela Poesia conseguimos ver... 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Pra onde aponto

 Quantas guerras travadas foram vencidas,

mesmo com todas as batalhas perdidas,

por quem venceu, quantas dadas vidas?

 

Quanto esforço imenso, em apenas um dia, 

não chegou a lugar nenhum, nenhuma flor

ou fruto colhidos, apesar de tanto suor,

se não era perene e intensa a chama que ardia? 

 

Esse canto busca a pergunta sem resposta,

a solução que se sente se não se vira as costas,

e apenas pelas incessantes dúvidas postas... 

 

Esse caminho não tem chance de estar pronto,

apesar das multidões que já o caminharam...

Mesmo que exércitos neles, de dor pereceram,

todo prazer está nele, e pra ele é que aponto... 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Vens?

 O sonho não se guarda: ou se vive

ou se esquece, se deixa, se "subterfugia"!

Feito um açude, que mar se pretendia,

mas seca, e sua boca não mais salive,

 

quando tu te lembrares do que te esperava,

do cheiro nas ruas que teu nariz sentia,

só de imaginar os sabores que tua boca queria... 

Tu sabes que o sonho era o que tudo te dava...

 

Mas, o deixaste pra depois: "sou muito jovem",

"sou muito velho", "sou pobre", "sou lento"...

Preferiste a cama proletária à liberdade do relento! 

 

E muito tarde descobriste que não se comovem,

os que diziam que tua renúncia era divino mandamento,

e só tu chorou ao lembrar, do sonho a perguntar: "vens"?

domingo, 30 de agosto de 2026

Revelação

  As Raposas elegem o Sabujo como amigo.

As galinhas, quem as faz ao molho pardo,

os jumentos a quem neles põe o pesado fardo,

e os trabalhadores, ao seu colega, de inimigo...

 

 A faca corta a carne que já foi abatida!

A trabalhadora limpa o chão de outra casa,

não a sua, onde suas crias são abandonadas,

e o pedreiro não mora na mansão por ele erguida...

 

O mundo não "pertence" a quem o constrói!

Não pertencem a quem as elabora, as riquezas!

Quem produz a comida nem sempre a tem na mesa,

 

e quem faz o remédio vê o filho chorar, porque dói,

e a fartura é um sonho distante, pra quem trabalha...

Mas nas casas dos patrões, nestas nunca falha...