segunda-feira, 24 de agosto de 2026

De novo

 Num vaso d'água qualquer plantei minhas dores,

pra que elas fossem lavadas todos os dias.

Cada dor, se era por dentro, não apenas ardia:

queimava! Mas por fora eu as cobria de flores...

 

 Numa estrada de terra, apontei meus caminhos! 

Entre as árvores do mundo cantei todas as glórias,

e entre os camponeses fiz adimirarem as histórias

que criei, ou que vivi, acompanhado ou sozinho...

 

Não sabia mais que hoje, nem sei ou saberei!

Caminhar me ensina as mais velhas lições,

e entorna os mesmos caldos de tantos senões...

 

Mas o novo renova tudo aquilo que já pensei!

E pensar novamente transforma o que foi deixado,

e cria estradas novas nos trilhos já (tão) caminhados...

domingo, 23 de agosto de 2026

Do que nos floresce

 

 No escuro da noite foi que vi estrelas.

No silêncio da solidão encontrei respostas,

e o caminho limpo entre pedras postas,

e as mais lindas imagens longe das telas...

 

O inusitado se veste da mais linda nudez.

O chão mais empoeirado é o mais rico de vida,

o trabalhador humilde melhor domina a lida,

e o ser mais soberbo é feito de pura rudez...

 

A verdade, é que nas pontas se encontra o meio,

em cada vela que se infla o caminho se abre,

e o facão da roça corta melhor que o sabre!

 

E como a criança quando nasce, já sabe do seio,

nossa intuição de candura, de alegria nos cobre,

e a beleza do chão fecundo, de fartura e floreio. 

sábado, 22 de agosto de 2026

Do caminho

  Este que sou tem todas as humanidades!

De cada mulher que veio antes de eu nascer,

de cada criança que morreu antes de crescer,

de cada ancião que lutou pela nossa liberdade!

 

 No rosto desta bandeira que comigo levo,

vive o vermelho do sangue de homens e mulheres,

o verde das florestas que viraram labaredas de dores,

e a tinta amarga, e festiva, destes versos que escrevo.

 

 "Quando nasci neste mundo, sei que não nasci sozinho",

escreveu Pancho Villa na cela fria que ocupou,

quando para o sonho do coletivo humano se entregou!

 

E assim, em cada celebração, o sabor do vinho,

terá o suor de quem o colheu nos campos, e o semeou,

e apontará o novo dia, do bem comum, nosso caminho! 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Do tempo criatura

 

 O tempo por si, não é aquele que cria...

Entre nós existe a ideia de que o caminhar

dos dias, das eras, erigiu tudo que há...

Nada mais falso! Nada do que existe haveria!

 

O tempo é ele mesmo uma criação da labuta!

O sempre repetido agir, cotidianamente repensado:

A dialética lida de fazer, e do refletir acompanhado,

 foi que criou este mundo, que a gente disputa.

 

 A aparência de "rio", que damos à ele, mostra,

que mais que servi-lo, o criamos em movimento 

pra ser motor da vida, que levamos velas ao vento...

 

Ele aponta as contradições, de que a gente nem gosta,

mas que nos permitem refazer-nos, e criar momentos,

 e recriar formas novas, melhores que as a nós impostas... 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Novidade ancestral

 Nossos ancestrais já andavam por aqui

bem antes de imaginarmos viver assim...

São como rios vitais que deságuam em mim 

 e se mostram em como já vivemos, vivi...

 

Porque hoje lutamos forte contra a vida,

negando o conhecimento, a história, a ciência,

dizendo que os seres humanos em sua essência,

da solidariedade, do amor, tem a "chave" perdida...

 

Dizendo que alguns tem mais direitos que outros!

Que o alimento, as casas, as riquezas pertencem

 aos nascidos dos que roubaram, e por isso "vencem",

 

 e por isso desprezam os antigos, e atropelam soltos,

 um modo de vida igualitário, que a nós pertence,

desde os tempos imemoriais, hoje nas brumas envolto... 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Nomadia

 Pelas estradas mais cheias de lama

toquei este corpo/carroça pesado,

entre espinhos e dores por todo lado

e alegrias e belezas, momentos de fama...

 

Tudo construiu e constrói o que sou!

Cada acorde da minha Viola vibra

com a leveza e o peso destas fibras 

que amarram meu barco que se lançou...

 

E do convés, refaço e repenso contas,

 como fosse a lâmpada amarrada á frente,

 iluminando águas, trilhas, ventos e gentes,

 

porque o que trago leva adiante as pontas,

 e toda marcha é sempre novamente:

Pois a mim, o caminhar não amedronta!

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sensores

 O imenso, o novo, as vezes espera

atrás da curva, da árvore, do muro,

surge de surpresa no momento escuro,

e inunda de luz, quando menos se espera...

 

 Ainda que a "não espera" seja relativa:

a cabeça que pensa não tem dados,

mas o corpo que sente já está ligado,

e sabe, e vibra, numa emoção viva...

 

O mundo, os fenômenos são maiores

que os nossos instrumentos para sabê-los,

e o que não vemos sabem nossos cabelos,

 

quando se arrepiam como fossem sensores,

ou os olhos veem um texto, sem poder lê-lo,

quando o existir se dá entre o amor, e os temores...