sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Os Ipês e a fartura

Os Ipês tem amarelado o chão e o céu,
Numa pincelada do absoluto que espanta,
E eu que assobiava como quem pedia ao léu,
A definitiva canção que ao coração encanta,

A recebi nas cores do amarelo mais que ouro,
Do amarelo acalanto, do dourado sem cobiça,
Que antes aponta o tempo da fartura, vindouro,
Em que o Espírito sacie e permita a preguiça,

Sem culpa, sem pressa, como fazem estes Ipês,
Generosos paspatús de Deus em meio à secura,
Quando palha e poeira era tudo que alguém vê,

Eles vimos nas cores da seca a altíssima formosura,
Feito a gentileza do doce do cheiro da mussambê,
Como a vida que em seus ciclos oferece a fartura.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Tão pouco

Na chuva de ontem de noite, percebi
O quanto que é tão pouco
Do que precisa, minh'alma, bem -te-vi,
Pra chegar a ser tão pouco...

Porque tão pouco é o que vim,
Buscar aqui.

Neste vale entre açudes e morros,
Entre vértices e pontas,
Entre passagens e passantes.

Eis-me, tão bem quanto já estive antes,
Sonhando um tempo azulado,
Em que não possa mais deixar de lado,
O que vim fazer aqui.

Que é tão pouco...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Um canto passarim de amor

Vim aqui hoje pra cantar um canto dos "passarins",
Canto de vindoura alegria
Solta, leve, transparente, amarela ou carmim,
Que se estende pela linha dos dias
Pela régua das fontes,
Que água antes,
Depois, barro na frontes da minha bizarria,
Se fez canto deles,
Seres alados pela Divina Alforria.

Vim hoje aqui cantar como quem pede desculpas,
Pela insistente poesia.

Vim aqui hoje cantar como quem examina com lupas,
A própria letargia,
E nada vê além do que parece dolorosa alergia,
A não compor,
A não cantar,
Anão que sou neste dispor,
De mim, do que parece apontar
Minh'alma de pequeneza insignificância.

Vim aqui hoje como quem não queria vir,
Como quem só vinha pra comer,
Como alguém que não queria jogar,
Apenas se sentar,
E assistir.

Mas vim, porque o tremer da pena se fez notar,
No cheiro que exalava, no suor,
Da tremedeira que passei a fazer vibrar,
Quando sem a esperança, em mim, a ferver,
(na ponta da minha língua a se amortecer),
Fiquei sem escrever, o que não sei dizer píor ou melhor.

E aí, vim aqui hoje pra poder soltar
Este canto incansável,
Que em meu peito irrelatável,
Está sempre a soar.

Vim aqui hoje pra compor este canto sem forma,
O que de toda forma, espanto, receio ou torpor,
É do meu jeito sem jeito e estabanado,
Um canto que olhando com cuidado,
Procurando nos meios e nos cantinhos: um canto de amor.
 

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Mestre Zezito

Este meu canto pequeno hoje se destina a pensar
O que significa em nossas vidas a  maestria,
Este encantado dom que alguns tem de orientar
Nosso caminho, como fez aos Reis a Estrela Guia...

E pensar no que é feito começa por ver quem fez,
Quem deu e dá sua vida pra esta sagrada missão.
Porque somos muitos os que caminhamos pela aridez
Somos muitos os que buscamos no deserto redenção,

E aqueles que alguma coisa aprenderam, e podem transmitir
Tantas e tantas vezes estão conosco na peleja pela vida
Lutando com os muitos leões de todo dia pra conseguir

O suado pão da existência, marcado pela estrela sofrida
De quem está lado a lado, orientando e tendo que seguir,
Por que Mestre é quem ensina a essência de sua própria lida.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A alegria de sê-la

Hoje a esperança há de me dar bons dias,
Os dias que prometem o trânsito das estrelas.

Hoje a beleza há de me fazer alegrias
Que podem ser lidas no voo dos passáros.

O vento adornou o dia com cor clara e luzidia,
Com seu canto que é tão precioso às velas,

E num lampejo do Amor de Deus que luzia,
Deu-nos a fartura prometida em cântaros.

Neste dia de hoje a fé se fez revolucionária ventania,
Que, prometida alforria, nos permite a alegria de sê-la.

domingo, 9 de setembro de 2012

Desmatamento

Capinei tocos de pau sentido,
De ter sua vida arrancada,
Sem nada que fizesse sentido
Em sua brutal retirada.

Mata saída da mata,
Campo outrora florido
Feito pasto, invernada
Feito canto virado alarido...

Um canto que era alegre
Virado em réquiem de dor
Festa que já foi tão leve

Transformada em grito de horror
Em grito: o diabo a carregue!
Em tempo que se há de transpor...

sábado, 8 de setembro de 2012

Fartura de se alegrar

Me canso, só de pensar
No tanto que ainda tem este tanto
Que temos que caminhar
Procurando entre escombros,
Encantos,
Nos cantos todos que se tem que cantar
Nas velas e ventos
Que se velejar
Nas piras em que as mentiras
Que sobraram das vidas
Que vivi, e que tantos vivemos
Tem que se queimar,
Por onde quer que andemos.

Eu me canso, só de pensar...
Mas me levanto,
Que a estrada é mais longa
Pra quem só seca seu pranto,
Sem se movimentar,
Que o próprio vento
Já quando se soprando,
Seca os prantos ventando,
E ventando vem enfunar
As velas que hão de nos fazer chegar
À terra encantada de encantos,
Onde o choro seja coberto de acalantos,
E em todo espanto
Haja fartura de se alegrar...