domingo, 14 de abril de 2013

O escondido

Em meu caminho tenho ido por vielas,
Muitas vezes escuras, muitas vezes sombrias,
Muitas vezes escusas, de maldade clara e fria,
Mas em todas eu só quis saber como era trilhá-las...

Algumas vezes também entro em ruelas,
Onde a claridade assusta quem vem das sombras,
Onde a areia se limpa com a vinda das ondas,
E o meu  coração se enche de Amor só por estar nelas...

Mas na maior parte das vezes sigo a velha trilha,
Gado que marcha rumo ao pasto conhecido,
Formiga que caminha o trilheiro permitido,

Porque na estrada, esta caminhada é uma ilha,
Onde nos mantemos longe da água do desconhecido,
Viva a água libertadora das vielas e ruelas, o escondido!

sábado, 13 de abril de 2013

Beleza e talento.

No vento no galho da pitangueira, eu vi,
Um lagarto verde com olhar interessado e astuto,
Para a brisa nas flores de mirra, encanto absoluto,
Perfume, cores, movimento, graça, tudo ali.

E vem de lá os periquitos enquanto é dia,
Numa zoada forte, que destrói os paradigmas,
E desacredita os pretensiosos e seus estigmas
Só pela crença na importância da alegria.

Assim, eu vertente de mim mesmo, outro rio,
Me rio, me choro, me ausento enquanto tento
Pra ser perfeitamente presente à precisão do alento.

Que vem de ver um fim de tarde no vazio,
Tempo de Luz que se abranda, estar dentro,
De si, cada um, encontrar com beleza e talento.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Namoramento

Vi flores novas, em velhos canteiros,
Nas beiras dos caminhos onde suspiravam,
Casais de namorados velhos, em gorjeios,
De namoramento antigo, se re-namoravam.

Namoramento é quando o encontro da gente,
Se encontra perdido, sem sentido de pensamento,
Como um vento que vira sobre o chão quente,
Como um navio singrando o asfalto cinzento,

Mas com a suavidade que consegue ter a água,
Quando recém-nascida, na grota, burburinho,
Ou como um beija-flor, que ao peso apaga,

Com sua prática de leveza, seu voo mansinho,
No ar, seu Pai, que a todo ser vivente afaga,
Que o nosso namoramento nos permita o carinho.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Minha corrida

Como fica minha corrida,
Desde agora até o tempo que for necessário,
Pra me encontrar com o receptáculo do Tesouro da Vida,
Pra ser de novo profícuo dignatário,
Sem que seja necessário ascender o incensário,
E me sejam feitos reconhecimentos pela vida sofrida,
E a boa intenção de que me valho?


Corro como quem quer encontrar a saída,
Como quem procura por todo lado o agasalho,
Na noite fria em tudo que vejo é toda esperança perdida,
É todo calor escondido e trancado num pesado armário,
E quem quisesse usar, teria que ser cadastrado num inventário!
Mas afinal, pra que serve a vida,
Se não pra quebrar o mal com a suavidade e o Amor do malho?

Tudo que sei,
é que não me furto o direito de continuar minha corrida...

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Viagem

E se vou, e se faço, e se me entrego,
Ou volto e venho, e solto ou passo,
Ou me deixo na correnteza do cansaço,
Em cada pedacinho destes pesos que carrego.

E se permito o badalar do vento no infinito,
Do meu corpo, onde os sininhos mensageiros,
Cantam esta canção de sons passageiros,
Na própria canção, o que é que será definido?

Então, como não sei se fico ou se me deixo ficar,
Embarco sem sombra de dúvida quando o navio
Se aproximando do porto, apitos e assobios,

Ou deixando o porto rumo aos desafios do mar,
Na primeira hora embarcar, e me entregar ao fio,
Das águas, dos mares de calores e grandes frios!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Nos dera

O meu mérito é curto,
E, se esmerilha...
Como um carretel do absurdo,
Que aqui se descarrilha!

O meu cabidel é um insulto,
Como fosse guerrilha,
Contra general estunto,
Que não agrega e se ilha...

A guerra ideal é a que só se anuncia,
Que não sai da régua,
Que a si mesmo nega,

E desaparece sob o Manto da Virgem, que um dia,
Numa velha terra,
Sua Luz nos dera!

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Meu coração

Que faço eu, hoje, que a sorte me lambeu,
Que o ocaso lançou sua rede e me deu
Esperanças, que o eu criança ávido comeu,
Fome de tanto tempo, que nem sabe como viveu.

Que faço este que sou mar que vem e vai,
Sopa de tantas formas de vida, tudo que ecoa,
Caminha, rasteja, festeja, vida sua e minha, voa,
Pelos ares e águas, Amor de mãe e pai...

Que faço eu, menino confuso, com medo e mágoa,
Numa hora sem o mar passar do umbigo, pé no chão,
Noutra sem temer perigos, além da arrebentação,

Que faço eu, sonhador nadando em infinitas águas
Prato de ágate, onde deposito apreço e opinião.
Sagrado receptáculo a que chamo meu coração.