sexta-feira, 7 de junho de 2013

Do que nos venta a Diva adorada!

Ahh! Folha em branco! Que fazer contigo?
Cantar sobre as brancuras, feito um castigo,
Uma ruptura, um som que dura, comigo?

Sob uma folha em branco se escondem
Todas as cores e as mais incríveis formas.
Caranguejos quase mancos e pardais e bondes,
E casas e florestas, rios, mares, codornas,

Campinas e Poemas, imagens de maçãs,
Incríveis dançarinos, pepinos, cães, romãs,
Maçanetas e sentimentos genuínos nas manhãs,

Tanto e nada numa folha branca de papel,
As vezes amassada, engordurada, sagrada,
As vezes tratada com respeito cordato e fiel,
As vezes entregue ao que venta a Diva adorada...

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Casa de Capim


Na vasta varanda das horas
Hoje se ajeita engrandada,
Colorida pelo que pintada,
Esta minha festa que comemora,

Que um dia com o mesmo nome
No mês do ano meiado,
Todo dia cantando encantados,
Todo dia um encanto novo sobe,

Das infinitudes de dentro de mim
Nas voltas da certeza perdida,
E minhas forças renovadas na lida...

Que eu sou firme feito casa de capim,
Balança com o vento sem sobressalto,
E tem a firmeza de seu teto ser o Alto.
Soneto comemorativo dos  2 anos do blog

quarta-feira, 5 de junho de 2013

O verde e alma plena


O verde tem cores de verde numa manhã cinza,
Que mesmo vertendo retina meus olhos se pançam,
Se dançam da virtuosidade da jovem menina,
Dançando no verde da manhã, cinzando onde se lançam,

Onde se esbaldam da verdura fria e sem Sol,
Uma espécie de Samba sem cartola e Mestre Sala,
Uma cantiga finita que nasce infinita no arrebol,
E se põe como uma urtiga, faminta, querendo rala,

Rala, rala, a pele clara vermelhidada pela coceira,
Da moça fiandeira de tecer mazelas e feridas,
Mas que tem frutinhas, galhos e ninhos, mantém a vida,

O verde se mostra como quer a quem quer inteira,
A beleza da criação, que aos magos mostrou cenas,
Que aqui só sonhamos, até que sejamos almas plenas.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Monte Belo


Os alquimistas criam,
Que a água, vezes infinitas,
Sendo destilada,
Suas propriedades vadiam,
Na dança do conhecimento, tão bonita,
Sua infinitude de Poder liberada!

Os alquimistas eram,
Creiam, gente muito letrada,
Gente que se entregava,
Davam a vida pelo que deixaram
Os anciãos da estrada.
E o conhecimento naquela estrada minava.

Os alquimistas sabiam,
Que a Vida tem o tamanho,
Do Amor que se tem pelo belo,
Que os magos ardiam,
Nas fogueiras vermelho estanho,
Nos sonhos de Monte Belo.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Um canto ao João de Barro


Mais alto que tudo canta o João de Barro,
Que eu vi, viu sua casa destruída pelo escuro,
Quando sobraram apenas os pedaços de muro,
No que tinha sido uma casa no bairro.

E o João de Barro foi novamente conversar
Na Olaria onde tudo um dia a muito começou
Onde ardia o fogo que o sombrio vento esfriou,
Procurar lenha, tijolos e telhas pra re-começar,

E na beira do caminho me encontrei com o pequenino,
E nas agruras da lida, muito além de tristeza,
Vi este lindo passarinho, de uma só cor, tanta beleza,

Cantando de manhã antes dos outros pequeninos,
Rei que constrói do rico barro sua riqueza,
João, nome menino, canto nesta manhã de infinitezas.~

Tela "João de Barro"  do  Pintor Adenilton

domingo, 2 de junho de 2013

Caminho e idade.


Do que viu o meu coração, o que os meus olhos,
Do que sofreu meu peito, o que os meus pés,
O que vazou caminhos minha esperança através,
Dos campos vazios, os trigos, seus molhos,

Do que se urtigou meu corpo nas montanhas de palha,
Do que já dançou nas noites de tulha ao som d'arcos,
E em barcos de marulha, com a lepidez de não temer largos,
Já se lançou além das pontas, cheiro e vento de Barbalha,

Do que já beliscou a beleza suprema, nacos e dores,
Arcos de íris ensandecidas pela harmonia estonteante,
Pela alegria, por si, algo embevecida de se saber embelezante

Pelo amor com que levanta-se pra realçar suas cores,
E deixar o jardim de visitas perfumado de tonalidades,
Da palheta de sabores, que me deram caminho e idade.

sábado, 1 de junho de 2013

De algo que já foi chorado a tanto tempo


As lágrimas de Caravaggio, claras, duras,
Doem a dor de um tempo que sempre mais,
Um tempo que não ficou no tempo de trás,
E que reúne ao passado, passagens futuras.

Naquelas lágrimas residem tantas Gambas,
E alegrias de uma gente famosa por não tê-las !
E arrasta-pés, que só tendo vindo de estrelas,
Lágrimas alegres que certamente vieram de ambas,

Estrelas e Gambas, sonhos de perfeição,
Onde o som se trans-luz-intensifica puro,
Feito um lampião que se acende no escuro,

Caravaggio canta nosso canto de imaginação,
Dura realidade que sonha algo melhor pra si, pro povo,
O mal que se vê há de ser alimento pro novo!

Inspirado no Lachrimae Caravaggio de Jordi Savall