sábado, 14 de setembro de 2013

A Sagrada bebida


Rei Arthur e os Cavaleiros na Távola Redonda


Quis e me servi da melhor bebida,
Como quem se vira na tumba antes
Que o desmovimento infecunte cante
Sua canção de silêncio pós-partida.

Bebi a passos largos, como se a sede,
Antes de me ter tivesse secos corpos,
Que não a saciassem, imundos porcos,
Pintando a lei dos animais na parede,


Eis que me tem sido assim, neste não ser,
A vida como contaminasse-se a si,
Como a vela queimando seu corpo em si,

Pra fazer pra quem tá por perto se enclarescer,
O tempo de se sorver a vida bebida que bebi,
Com a sede de ser, virar e ver o que já vivi.


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Pedinte de Encantos




Tem melodias que só se as ouve,
Se se cessa todo ruído não natural,
Como as teclas que teclo neste terminal,
Um pensar e criar como antes não houve,

Onde o inusitado é sempre o que sempre coube,
Ali, se ouvirá aquela melodia passarinha,
Vento de asa de Borboleta na Douradinha,
Papagaio de penas canoras, o eu que me move..

E por sentir em minhas penas esta eterna melodia,
Hoje, amanhã, desde antes do tempo se contar,
Eu já a ouvia, e a cantava, e a canto sem parar,

Em todo canto que canto nesta minha arrelia,
Neste meu sonoro desacalanto de cantar,
Pedinte de encantos, pra poder me encantar!



São Francisco de Assis. Desenho de Luana Almeida.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Biruta inteligente



As vezes em que me vento,
Colho o frescor do tempo,
Nas frestas e alturas
Nas vacuidades e canduras...
Eu me sento,
Em mim que sou vento,
E viajo em minhas imaginaturas...

E o que sou, por fim?
Quem sou eu, este em mim?
Quem me habito e a cada volta,
Do infinito em suas desvoltas,
Revoltas em mim,
Do tempo sem fim
De tantas, tantas voltas...

Mas aprendi que ao final, viver,
É entender como aprender a entender,
E se voltar pra ver o recente,
De novo olhar o novo, novamente,
Como um tecido a se re-tecer,
Como um pedido, a interceder,
Vento e sentido, biruta inteligente.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Borboleta na Douradinha

















O Cerrado sempre surpreende quem se avizinha!


Como a Cagaita que desde longe avisa com seu perfume,
Como a Mutamba cuja casca dá, da rapadura o gume,
Como a perfeição inesperada da Borboleta na Douradinha.

Uma pétala do oceano da beleza, uma gota de flor,
Uma pitada infinita de asas alaranjadas e pretas,
Uma enxurrada delicada de perfumes, sons, palhetas,
Tudo contido no que pode ser entendido como nada menor...

Assim, uma borboleta que pouse inconsequente,
Numa Douradinha suculenta, dadivosa e sensual,
Pode pensar: "Não pode haver nisso nenhum mal",

Ou será que nem pensa a borboleta, apenas sente,
Que a força infinita da gratuidade da existência é tal,
A ponto de borboleta e flor serem maiores que tudo, afinal?

Foto: Evando F. Lopes
Estação Ecológica Águas Emendadas

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Atrevimento



E as flores que amarelam este dia,
Dos Ipês que também, aqui e ali,
Uma cor roseada, branco da flor do pequi,
E foi se pintando esta manhã que nascia,

Entre os ventos de setembro, e a galhardia,
Do Cerrado em fins de seco, tão florido,
Variando amarelos em dourados tintos,
Espaçamentos de capim, e toda a minha alegria.

Pois que a secura que já me entristeceu,
Hoje mostra a enormidade de cada tempo,
Tudo se completando pelo contentamento,

De perceber que a beleza das flores se nos deu,
Pela necessidade de praticarmos o avivamento,
De olhar pra beleza, e vê-la em nós, atrevimento.


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Chegado o tempo da felicidade em essência

Crianças brincando
Desenho de Laís Brevilheri

É agora que o tempo se dá,
O tempo da Paz, o da beleza,
O tempo da serenidade e da leveza,
É sempre em mim, e por mim que ele se dá.

Não porque seja melhor que alguém,
Ou porque a Luz do Sol vem me alumiar,
Mais que a qualquer outro alumiar...
É que percebo que quando vejo, crio o trem...

Meu olhar me cria e cria meus olhos,
Minhas dores e penas, minhas alegrias,
Meus sucessos, novenas e fantasias...

E por isso à partir de hoje escolho os molhos,
Que darão sabor ao prato desta existência:
É chegado o tempo da felicidade em essência!

domingo, 8 de setembro de 2013

A Idade do Espirito Santo




Ouvi em cada uma das palavras,
Escondida na pronúncia que exige iniciação,
De um idioma de defesa e libertação,
Deste meu povo de folias e lavouras,

Palavras de idiomas de antiguidades e bravuras,
E bravejos, e cortejos, e a mais alta ligação
De um povo com a ainda ignota, mas em identificação,
Raiz em terras tantas em diversas ligaduras,

Ouvi as palavras como quem se ouve,
Num tempo passado que já não é este,
Assolado pela mesma assolação deste,

Mas encantado pela eterna novidade,
Nova idade, esta do que em Espírito vieste,
Santo que virá, do bom de tudo que nos deste...