sábado, 21 de setembro de 2013

Missão




Não sei te dizer,
Nem mesmo a Poesia, com sua altitude e leveza,
Com sua magnitude, alegria e beleza,
Dão conta de trazer do peito à voz o que se precisa dizer.

E na calçada, o pago velho,
Largado porque já não tão veloz e arisco,
Risca o céu com sua faca de amargura feito um corisco,
E sai da cena da rua, de um corpo no chão, um espelho.

Da vida, seus estertores e mandamentos.
Um chão que não se corta,
Um passo, que a mais ninguém importa,

Disseram que meu santo é o da alegria e contentamento,
Ai de mim, velho entre velhos, que já viu a morte à porta,
E que lanço-me nestes tormentos com a missão mais torta.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Do Bem-virá




Hoje, enquanto sonho grandezas e vertigens,
Acrobacias de voos, lampejos de genialidade,
A agudeza de uma dor me faz lembrar, que na realidade,
Tudo que há tem a essência da inessência da viagem.

Pois que este nosso estado estágio é de passagem,
Transito alado entre a costa bravia e o costado,
De calados profundos, lindo e fecundo de meu barco alado,
Com que corto ondas e voltas, e novas paisagens,

E venho pintando esta música que se ouve,
Quem para pra ouvi-la, se se permitir ouvirá!
Como o ar que canta, uma bem-te-vi, um tangará,

Um motor que ronca como quem se move,
E move a vida, nossa busca pelo bem-virá,
Terras onde a existência será bendita, e nos acolherá.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Antigo navegante



Então, da pressa com que corri rumo ao mar,
Só pude ir vendo as paragens, arestas, aragens,
Quando o vindouro cheiro de sal nas brisagens,
Em minha alma, e no meu nariz, começaram a chegar...

Tudo que eu queria era ver de novo as vagas,
O sobe e desce das marolas, o crispado,
Branco do cimo do lombo do burro indomado,
Do balanço da água, que ao meu barco amava...

Eu era marujo, Deus sabe quando isto foi.
Mesmo quando ainda eu menino, e mesmo antes,
Mesmo quando os sonhos pequeninos e infantes,

Valiam a esperança que supera sempre o que dói,
Num tempo antes do tempo eu já era navegante,
E já singrava mares, me sangrando as veias distantes...


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Na tarde que te sorri




Uma tarde destas, eu sorri você todinha,
Sem deixar uma escama de fora,
Aliás, toda cama em que alguém chora,
É uma cama triste porque vazia.

E quando eu te sorri, pouca coisa havia,
Que eu não já tivesse visto, beijado, cheirado,
Lambido, assado, pelo meio ou pelo estrado,
Das estradas de tudo que em ti há, ou se fazia...

Pois que das ancas das prendas de minha casa,
Eu, ancestral vendilhão, que a tudo sempre acompanhei,
E vendo astros em colisão com barros, apanhei,

Digo que nada disso deste fardo hoje me embasa,
Porque te sorrir, meu amor, me faz re-ser
O ser sem medo de suas asas bater!


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Porque eu assobio




Nesta manhã, os assobios me deram a dica da cor
Com a qual eu poderia pintar as cores deste dia,
Como uma cor de fundo que emerge pela alegria,
Como uma manha bem vinda pelo que manda o Amor...

Nesta manhã, o ar que quer cantar pelo corpo cantor,
Se solta pra além da voz só com o compromisso da melodia,
Como se a música toda de vez quisesse ser ventania,
O ar se solta assobiando e se mostrando cantante encantador,

Pois que o assobio é o passeio do ar infinito pela canção,
Pela memória mais de dentro de tudo o que realmente somos,
Pela certeza no futuro de sermos melhores que sempre fomos,

Nasce de tudo que somos este passarinhar em ação,
Venta por campos e serras, vales, subúrbios e rios,
Marca de menino que sigo brandindo, porque eu assobio...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O que fazer, pra re-fazer sem quebrar?




A violência de uma arma de fogo,
Mesmo numa mão generosa não se mede!

Nada pode ser mais violento pro nosso povo,
Do que as industriais armas de fogo que se vende...



O tempo todo a maldade tenta nos convencer,
De que nós somos nosso próprio inimigo

E que o nosso pé sempre põe tudo a perder,
E por isso devemos lhe dar um tiro, de castigo...



E assim, tiro no pé, seguimos manquitolando,
E a maldade de longe, vendo o momento propício,

Pois que depois de só observando, observando,
A maldade nos empurra pro doloroso precipício...



As armas de fogo são invenção daquela maldade,
Que nos habita, e que permeia nossos dias,

E que tem causado tanta, tanta calamidade,
Que o único jeito de a combater, e ganhar, é pela alegria.



Pois que a maldade se desfaz ante a leveza,
E sucumbe ante o gesto mínimo de carinho,

E muito mais forte que a arma de fogo, é a gentileza,
Muito melhor que a dor é saber que não estamos sozinhos...

domingo, 15 de setembro de 2013

Infinita água



A água me serve, me sorve, me supera,
Em tudo que existe pela clareza de servir,
Superior generosidade que faz-nos sentir,
O poder que a servilidade consciente gera...

Com a mesma Graça que cai da cachoeira,
Supera montanhas, forma mares e rios oceânicos,
Verte miúdo, singela, fresco presente Tupânico,
Que nos deu o Trovão, e que me é a vida inteira.

Água é hino, é cantoria na fogueira,
Não se opõe ao fogo, antes operam juntas,
Constróem mundos novos, com cinzas fecundas,

Dos vulcões onde água e fogo são a chocadeira,
Onde nosso mundo sai do ovo, pra ser,
A vida plena que a infinita água nos faz ter.