terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nesta vida, amém




No ventre deste tempo, insólito,
Meteorito bólido nos ameaçando
As cabeças e os olhos coçando,
E os ouvidos incrédulos, atônitos,

Pois que o som do nada conspira,
Contra toda a sobrada sensatez,
E o lobo, que das Estepes, espera a vez,
De ventar sua fome, e alimentar a pira,

Que queimamos, queimaremos, queimei
O que de mais precioso me vem
O mais insólito, e que queima tão bem,

Que é o conjunto dos sonhos que juntei,
Caminhada, colhendo o de mal, o de bem,
Colho tudo que plantei nesta vida, amém!

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Continuar


Estes imensos de vastos corredores,
Eu, correndo de minhas dores de mim
Eu batendo, o sangue vertendo, carmim,
Regando o regato lento e feroz, das dores.

Lá dentro do peito enxadas lavram eitos,
Lavram lavras de ouro que não escarram,
E só o escarro vindica de onde vieram,
Meus cães infernais, meus irmãos perfeitos.

E mesmo os incensos, mesmo os perfumes,
Com que me instruo a direção, ao alto de olhar,
Ainda neles flutua a sensação inóspita do deslume,

Que embaça a vista, me apaga os vagalumes,
Me arremessa junto à toada que tem o trilhar,
Pois, brincante estradeiro, viver é continuar.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Inéditos absurdos



E o ventre vago, o vazio da manhã,
Um vento esparso, no espaço sopra:
É o que queima a pólvora, permite a ópera,
Permite o jogo, João de Barro, maçãs...

O dia, terá a melodia que nós faremos,
A cor de tudo quem dá, nós damos,
Nós criamos tudo que foi, e nossos planos,
Criaram e criarão o que habitamos, e habitaremos.

O canto de João, e sua Joaninha na janela,
Janela deles, e esta, de onde os escuto,
Há de saber contar de tudo que foi criado, tudo,

Do nada que me tem afogado, sua Luz tão bela,
João e Dona Joana, de Barros, ambos, frutos,
De outros João e Joana, criadores de inéditos absurdos.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Pelos dias que há de ter




Aquele senhor, de quem cantei,
Aquele imediato amparo, caro, raro,
Aquele antemão que por vez disparo,
Aquele meu cantar que ainda nem sei,

Mas, seguramente, saberei...
O porvir de meus risonhos, dia a dias,
Sangue que vertia das ambrosias,
Que comias, no seu dia, de Rei,

De Rainha, de esposa da vontade,
E a própria vontade, que há de arder,
Que há de ser a versão de verter,

De sub-verter a noção do que já arde,
No próprio peito se invade e se permite perder,
Pois o dia guarda, que te guarde os dias que há de ter...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O arauto amarelo e preto



A cor do que cada um carrega,
Em seu peito sua essência flora,
No ar, que ora medroso aflora,
Antes primaveril viril à entrega,

Mas a brutalidade deformou caminhos!
Nós, os seres absortos apenas vimos
Que nas praças, o mal, afinal, nós vimos,
De nós nascido, em nós mesmos espinho.

E assim como visto, agora veremos,
Já vemos a Luz em cada manhã clara,
Em cada manhã de chuva, vida à nós cara,

E cada gota nos dá que nos alimentemos,
Pra seguir este caminho de paisagens raras,
Até hoje ouvir o Bem-te-vi, o coração dispara!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Baião bem cantado

Linda foto Rita Elisa Seda http://livroretalhosdeoutono.blogspot.com.br/


As cores passam bólidas,
Quando se percebe o insólito,
Que é se acreditar no sólido:
Nas montanhas o escultor é eólico.

O vento muda o senso do óbvio.
A alegria, a percepção do minuto,
Tudo, tudo se torna diminuto,
E anos se esvaem, tempo móvel,

E movediço, areia dos pesadelos,
O tal tempo que passa, voraz,
E morde pelos lados, e atrás,

Na verdade, tenaz e gentil companheiro,
Pois o tempo é sempre renovado,
Fartura, Alegria, Baião bem cantado...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Novo, todo dia

"A Sombra (Homens trabalhando)" de Zina Aita


O novo sempre me instiga,
A transformar pó branco e planura,
Da folha, da tela que imita a brancura,
Em ar, sopro e nada, ou seja, cantiga.

O novo sempre me provoca,
E onde antes apenas a imensidão de vazio,
Uma folha que se dá, enfim, santo cio,
Santa novidade que aos Deuses invoca,

Pedindo Paz e Alegria,
Leveza, Pureza, Pão e Ambrosia,
E Mel, e Hidromel que não embriaga, contagia,

E faz ver uma nova verdade, que irradia,
O tempo novo que o novo propicia,
Ao desafio de criar, toda hora, todo dia.