sábado, 14 de junho de 2014

Este chão

E o pó do chão se fez ao ar,
vermelhou o dia e as roupas brancas,
as roupas velhas amassadas e tantas,
o chão se elevando pelo transitar.

E o passarinho, trazendo galhos,
barro, pedras e folhas e pelos,
e nas áreas mais altas os paralelos,
os vales que tem do que me valho,

e sigo aqui, dia de hoje, este agora,
que nos habita e trafica a alegria,
e repassa a serenidade que contagia,

pra gente passar pela barreira anti-sonora,
que é alguém, lá longe, acreditar que se esvazia,
e que qualquer peito não é digno da alforria.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Da calmaria à tempestade

E quando parece que tudo se perdeu,
o vento vem, o vento vira e se esquenta,
e onde reinava a apatia, cada onda que arrebenta,
é a vida que se tira de onde se pensa que não deu...

E na beira da nave o contra-pino segura,
o cabo, a vela rasgada e molhada da chuva,
e o barulho ensurdece e ninguém se escuta,
e a cada segundo se bebe da vida mais pura:

a vida que o medo nos dá como dádiva!
A sobra de seguir quando tudo parece,
que só o fundo sem fundo ouvirá aquela prece,

que alguém, muitas vozes em distantes lágrimas,
em cantantes pedires, cadentes cantares se tece,
a ladainha da vida: que a calmaria à tempestade comece!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Planta cantiga

Cantiga de planta, prontamente se passa,
no verde eterno e lento que me vigia...

No fugaz da cor que anuncia que a dor se escassa,
e que chegará o dia da mais simples alegria.


Cantiga de planta, Sol e praia de águas rasas,
meus olhos, mar de pequenezas e alforrias,

solidão, amor, prazer que é tanto que amassa,
que extrai o suco do infinito e supera as vilanias...


Cantiga de sorte, graça, alegrias e farturas,
eu desfeito nos cantos que rarefeitos me habitem,

o ar habita galáxias, os ventos estelares das pinturas,
sofisticações das gentes que nos abracem e aconcheguem


pois o caminho será força e mostrará o lugar onde dura,
a certeza inaudita, vontade bendita de estar onde pedem,

pela beleza da corda que conduz o Sírio à mais pura,
fé, que nesta minha cantiga, planta querida, amor do mundo, amém!

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Renascer









Numa foto velha, desbotada,
o Sol banhava minha janela...
E banha, agora podia ser ela,
a tal foto feita, a janela banhada.

Marquei com giz de cera, a borda,
um desenho impreciso, cheio de gana,
cheio do amor que às sensações inflama,
E faz no dia o que a beleza borda.

Porque a beleza nos borda todas as vidas.
Se queremos e pedimos, mais, mais vindo,
mais chegando da beleza que o dia luzindo,

e nas barrancas do rio da Força, a força da lida,
de subir as corredeiras, peixe que vai botar ovo,
fazer-se novas velhas fotos, pra me fazer um eu novo.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Da beleza deste momento


Uma bandeira me desfralda enquanto me costuro,
eu, em mim, meus muros me deixando e caindo,
 e eu ganindo, lavrando com os dentes e sorrindo,
como o pardal que apesar de ordinário é puro.

Mas o que realmente conta é o Sol da minha bandeira.
O mesmo seu, e de quem se põe à porta e pensa,
e sai e vai, e com todo o seu corpo se põe à prensa,
e se faz suco de si, pra ter sentido sua vida inteira.

Eu sou meu próprio extrator, minha fruta, meu sumo,
e sou esta minha bandeira que me tremula no vento,
e me guia no rumo das águas de fim do tormento,

e sei que o bom de poder dançar na brisa dos rumos,
é se deixar ver o invisível pelo ancestral encantamento,
de se, me perceber bailante da beleza deste momento.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O criar que me cria


Meu valor vivo vive nas vigas,
em que me sustento, me aguento,
levanto, suporto, suspendo...
Algum valor em estar sendo ainda.

A matina colore supresas, e a alma canta.
O tempo afetivo que chamamos dia, nos motiva,
nos impele ao descanso, e nos aviva,
manhãs depois da noite e seus encantos.

Meu calor me esquenta e permite a lida,
que constrói minhas razões e sentidos,
que me dá medos daquele metal já polido,

 das centúrias do fogo que enfrentamos na vida
tertúlias e estopas e sobras do repartido...
Por isso, recriar-me na força, e me refazer os sentidos.

domingo, 8 de junho de 2014

Canto teia

Cantiguei-me. Era tudo. E tudo virá
da árvore vera vereditadeira dos mundos,
que em tudo se transmuta em sons mudos,
sons de canções, longe do avesso que há.

E o que há pra ver há de ser radiante em luz.
Há de ser esfuziante em graças e alforrias.
Há de ter o tempo da eternidade fugidia,
e brilhar nas costas bravias por onde andaluz,

eu, marujo de eras benditas de mar e tempo,
navego vagas como se a vida subisse e descesse,
como sobe e desce nas artimanhas do que parece,

a aranha de fios, o Chronos senhor do alento,
a viga que sustenta a avidez que se move e cresce,
a Paz que luzirá no canto que este meu cantar tece.