segunda-feira, 7 de setembro de 2015

De cada tempo



Canto uma ode,
à seca,
que o inusitado pinta
de cores improváveis e frescas,

cores difusas e ocres,
como o farpado da cerca,
dum cinza que se enfeita
de flores e tons fortes,

pedra vermelha,
por do sol na terra,
cor de caminho e erva,

que neste tempo se assemelha
à morte, irmã eterna
vista na seca esperando a vida, terna.

domingo, 6 de setembro de 2015

Vital enredo


De que vale
atravessar?
Melhor falar,
ou que me cale?

Depois da lida,
que vai sobrar?
Quem pode ganhar
a marcada corrida?

Talvez o segredo
seja nem correr,
mas deixar ser,

sem culpa ou medo,
porque há de verter,
todo o vital enredo.

sábado, 5 de setembro de 2015

Acrobacia


O vento fazia tremer
as casas
as asas e suas acrobacias rasas
sobre as casas arremeter...

E na loucura que parecia,
o espaço,
e seu berço raro e raso,
onde este mesmo espaço se concebia.

E o lá e cá de tudo
se desfez, se refez,
refém de si, toda vez,

e o avião e seus absurdos,
desconstrói medos mudos,
e nos devolve voz, Paz, vez.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Dia quente


Qual é o passo,
afinal, a ser dado?

O berço e o laço,
em cada um, todo lado?

Canto as cantigas
mais senhoras, cadenciadas,

matronas antigas
potrancas apaixonadas,


e sobre tudo,
e sob cada marcado,
um soluço
um prego na roda fincado,
de manhã, um russo,
dia quente anunciado.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Canção da sobra


Fiz uma canção,
atéia, 
de Louva-a-deuses 
e batéias de aluvião...

Cantei de mim
uma cantiga
das flores antigas
que brotavam num jardim,

que abandonado,
feito o que planto,
rebrota em todo canto,

dizia Cassiano Ricardo,
com figuras de espanto:
de tudo, um Louva-a-deus sobrando...

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Vencendo


E disto
que me consome?
O que me une,
o que me some?

E desta 
dor inaudita?
O que me resta,
enquanto se dita?

Um vento
soprou sutilezas.
Era calmo, lento

macio rebento,
feito as incertezas,
que vamos vencendo...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Da Paz


Nem tudo
vento, ou passo,
lance ou laço,
falador e mudo.

Quase nada,
nem vertigem
árvores ou fuligem,
rios e enseadas...

Comigo e longe,
nisto que velejo,
ao antes antevejo,

no passado esconde,
tanta dor, não mais,
que o Reino será da Paz!