terça-feira, 14 de agosto de 2018

Desapego



De uma cantiga antiga,
que eu mesmo fiz,
das dores que me impus,
de tempos de tanta intriga,

eu, renomado passante,
que está, e já não mais,
barco sem bandeira de cais,
celebro a eternidade do instante...

Porque só nele, de fato
sei tecer teias  e melodias,
plantar Rúculas, Alecrins e alegrias,

penso, que antes de feto...
Hoje então me dedico,
a perpetuidade do que abdico...
 

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Concentração

 
Um evento de dispersão
muda o rumo do vento,
desalinha o desatento,
e desarruma a intenção.


Não vale o triste momento,
não serve pra nada além
da tristeza que só convém
pra empacar todo Jumento.

Se me concentro, encontro,
o vasto que sobe ao céu,
a riqueza deixada ao léu,

e as cores de todo ponto,
pontuando as horas baldias
da mais pura alegria!

domingo, 12 de agosto de 2018

Sustos


Sou um velho bruxo
que sonha fazer, gabola,
alquimias de Viola...

Alma antiga de bicho,
sonhada em vestidos
e pompas nos tecidos,
tosca e cheia de caprichos...

Sinto o prazer robusto
de queimar meu corpo
na fogueira dos escopos,

na insensatez dos arbustos,
que sonham o céu
e anseiam o chão, que é seu,
mas que tem seus sustos...

sábado, 11 de agosto de 2018

De outra série




Chorei amálgamas, sínteses,
muito mais que esperaria,
feito espécies de especiarias,
nas comidas e nas próteses.


colocadas antes no espírito!
No calhamaço de papéis,
meu medo devasso dos tropéis,
no velho, e nos inéditos....

E só saberia se fosse,
nunca ficasse, e tudo 
que cheguei a ver,

onde a tristeza se parasse,
e me mostrasse que pode ser fecundo,
este movimento de sobe e desce...

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Meu e seu


Quem é que acha que é dono
da comida que não pode comer,
tendo gente querendo ter,
e sem ter cor ou de dinheiro como?

Quem acha que tem a propriedade
de uma casa em que não mora,
quando tanta gente se apavora,
de passar as noites nas ruas das cidades?

A única real corrupção
é a do ser que tem excedente
tirado do suor das gentes,

locupletado em acumulação,
fazendo ricos e pobres, sujando o mundo,
matando tudo que é bom e fecundo...

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Inesperado



Antigos e desgastados,
meus dentes cortam
as carnes e as cordas, 
de tanto, pelo tempo, afiados...

Vermelhos e introjetados,
meus sangues lavam
as veias e artérias que estavam
e estão em seu curso postados...

Eu sou só, e só cantado,
é que ainda valho e vejo
a vida, suas mordidas e beijos,

como quem corre parado,
ou se encanta com os lampejos
dos amores inesperados...

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Do que trago


Me desfaço, incauto e disperso,
armas apontadas na direção
da total auto-dispersão
porque, fatalmente me dispenso!

E enquanto caminho no rumo
de não mais ser, nem vibrar,
bradarei tudo que houver no ar,
com a força que se aplica aos remos,

com a esperança que nasce
todo o dia nestas vagas,
onde subo e desço, e se apaga,

e tudo por saudável, cresce,
fazendo-me porção de sabor amargo,
não pelo que desejo, mas pelo que trago...