quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Desde a tanto


E todas as falas então se viraram,
e o que parecia gentil e companheiro
com a adaga fez machucar, sorrateiro,
inimigo escondido em peles que baliram,

e o grito do povo, feito em Palmares,
quando a ordem veio da côrte,
com a sanha da fome dos cortes,
dos açoites, da preguiça dos velhos senhores,

que preferem matar à trabalhar!
Que preferem as pessoas com fomes e privações,
assim não terão que laborar nos aluviões,

pois só querem o ouro que pele negra puder tirar,
da terra, sulcada como a pele escrava,
de quem o bem nascido senhor tudo rouba, e já roubava...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Benquisturas


Eu sonho que me sobrem benquisturas...
Como farturavam-se os queijos,
as mangas, bombocados dos desejos,
frutas do mato e mel de toda finura,

como se calaram os ventos e seguiram
mar adentro, terra adentro, sobre as matas,
e viram sem ver o que em sonhos abstratos,
poderíam ter imaginado estes olhos que viram...

E vejo minha terra, de novo, grande em minúcias,
como um povo que acha bom ser aprazível,
ter lindas praças com árvores de sombra sensível,

e caramanchões de desenvoltura única,
e que nosso povo colecione tipos de flores,
pra saber a época do ano percebendo os odores...

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Escolta


E era tudo, uma festa e uma força,
uma alça de encantos e sonhos e dor
e vidas e prantos e soluços tantos em flor,
nem sabia se sorria, como quem se esforça...

Mas em cada esforço que fazia,
a flor deste amor que me nasce,
me cresce, me sempre re-tece,
e re-faz com cores de festa e alegria,

na fila grande da volta do sido,
quando o arco espiralizado volta,
parece que volta, mas passa em volta,

e vês tudo que és, e vejo, e visito,
feito uma corda que se estica e solta,
uma certeza de que o infinito me escolta...

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Alegria e leveza


E eu hoje acordo com a boca amargando.
Como se pudesse uma ressaca nesta boca,
boa boca que não bebe, nem nada, e coloca,
em prática a delícia desta vida se moldando,

eu hoje, em minhas condições me valendo,
de minhas histórias, em que me construindo,
me permiti, e validades eternidades fluindo,
e sentenças em espécie em mim doendo,

eu hoje por algumas coisas senti dor.
A velha e conhecida dor que vigiou,
meus dias quando sumida tanta flor,

meu canteiro quase se murchou,
e eu acordei vestido de vazio e tristeza,
que eu hoje quero alegria, e leveza

domingo, 5 de outubro de 2014

Onde as pedras choram


Onde as pedras choram,
os homens são leves,
as horas eternas.

Ternas e bordadas, Saíras voam,
suas cores de enlevo,
quase uma cor em cada pena...

Eu mesmo, que nasci em suas bordas,
bebi antes e muito de suas lágrimas,
águas encantadas do azul de suas páginas,
de livro da Natureza, plantas vivas e mortas,

bichos vivos, grandes, sóbrios e pensativos,
mosquitos, Pinhões, ribeirões e certezas,
longos caminhos a se percorrer com beleza,
Amantiquir, pedras choram e mundo altivo...

sábado, 4 de outubro de 2014

Carranca


E eu vivia como um harpejo, 
me decompondo em cada nota,
em cada pedaço, laço, vaso, porta,
Rosa ou prosa, Cangaço e beijo.

Eu sentia como sente o vento,
que passa em todo canto
que se exala em febre e espanto,
em cantiga de boi, acalanto lento...

E nas beiras de tantos rios,
ventava galhas, soprava a água acesa,
lento como sonhos de leveza,

veloz como estados de delírio,
amplo como a mais pífia miudeza,
feito uma carranca descendo a correnteza.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Novo


Me derreto na chuva
Quando venho do espaço
E se faço, desfaz-me o aço
Com que cortas vidas e uvas

E te exorto ao acessório disto
Ao divisório entre o passado
Já feito, intocado apesar de maculado
Repassando-se em fenomenais obeliscos

Para presente novo, radiante
Com esta chuva molhando pretere
O cheiro da terra, da grama, da pele

Do mundo em festa delirante
Da simples alegria, que o novo
Oferece, nos mostra nosso povo.